17
Jul
07

Crise zimbabweana: um penteado que urge desfazer

Depois de um longo período de ausência neste portal, decidi voltar. Um regresso não muito estranho, pois este espaço é meu. E se estive ausente, na verdade, não foi por maus motivos. Este espaço foi concebido não para bloggar, mas sim expor as mais importantes ideias sobre o mundo e o meu país, da mesma forma que o faço, aqui, diariamente, sempre que posso.

Hoje, darei a continuidade à análise da crise zimbabweana, para falar ou tentar compreender as causas que estão por detrás do cepticismo de alguns Estados africanos, ao não se insurgirem publicamente contra as atrocidades cometidas por Robert Mugabe e seus aliados.

O temor pela desestabilização regional

Parece-me que uma das razões que levam os estados da África Austral a tomar posições dúbias em relação ao que está acontecer no Zimbabwe é o temor pela retaliação que este possa infringir aos seus vizinhos.

Tomemos o caso de Moçambique, ou África do Sul (depois): numa situação em que estes decidem exercer pressão sobre Mugabe, adoptando sanções económicas, Mugabe pode na realidade, retaliar, desestabilizndo por essa via, toda a região austral de África.

Moçambique poderia por exemplo, cortar o fornecimento da energia de Cahora Bassa (aliás, o Zimbabwe deve a Hidro-Eléctrica de Cahora Bassa biliões de  dólares), cortar o fornecimento de combustível, através do PIPELINE Beira-Mutare ou mesmo proibir o escoamento de seus produtos através dos portos da Beira e do Corredor de Limpopo.

Por sua vez, o Zimbabwe, poderia desestabilizar o país infringindo duros golpes à economia nacional, sem no entanto, descurarmos um provável uso da força militar.

Economicamente  poderia também retaliar, adoptando o princípio de reciprocidade, cortando igualmente as suas relações comerciais com Moçambique. Ou mesmo fechando as suas fronteiras e expulsando os milhares de moçambicanos que, apesar das crise, continuam a residir por aquelas bandas.

A fronteira ocidental entre Moçambique e  Zimbabwe é bastante ténue. O policiamento é quase inexistente e poderia ser muito bem aproveitado por grupos armados e ou bandos de assaltantes para desestabilizar tanto o interior do Zimbabwe como Moçambique, aliás, como teria acontecido com os chamados “Chimwenjes“, um grupo de homens armados que surgiu e desapareceu por morte natural, em 1992, logo após a assinatura dos Acordos gerais de PAZ entre o Governo e a Renamo. Supunha-se que se tratava de um grupo de ex-guerrilheiros da Renamo, apoiados por chefias militares zimbabweanas, cujo objectivo era pura e simplesmente sabotar o Acordo Geral de Paz, fazendo-se passar por homens armados da Renamo, numa altura em que, ao abrigo do AGP, todos militares se encontravam acantonados.

A recente captura de homens armados juntamente com o seu material bélico na parte oriental do Zimbabwe, prova mais uma vez que, numa situação de fechamento de fronteiras entre os dois países, grupos irregulares como estes poderiam livremente passear e organizar-se entre as terras-sem-ninguém que os separa.

A experiência de Moçambique com situações destas é rica: durante a guerra civil entre Renamo e o estado Moçambicano, as relaçõeos diplomáticas entre a república do Malawi e Moçambique não eram boas. Dizia-se que Hastings Kamuzu Banda e o seu país constituiam a retaguarda segura das forças da Renamo, onde se reabasteciam; facto que veio a se comprovar. Todavia, mesmo depois de expulsos, em 1989, a Renamo usava  as terras-sem-ninguém para  se reorganizar e de lá, encetar incursões armadas no interior de Moçambique.

O mesmo poderia acontecer com a República da África do Sul. Mas para o caso concreto moçambicano, diga-se de passagem, a República do Zimbabwe é militarmente mais forte do que a República de Moçambique. Tanto em termos de logística militar como em preparação física dos seus homens. Pior, Moçambique só pode fazer guerra como os Reinos de Lesotho ou Suazilândia. E, o Estado moçambicano está consciente nisso. A sua capacidade de suportar e gerir crises, sejam militares, sejam sociais é fraca , ninguém no governo está interessado em se lançar contra um “búfalo ferido” , mais conhecido por Robert Mugabe.

A única palavra de protesto na região veio da Zâmbia, onde Ley Mwanuassa, seu presidente, chamou da crise zimbabweana de Titanic! Mas pode-se compreender: é que Mwanauassa, como Bingu Wa Mutharika do Malawi, não fazem parte do grupo dos “libertadores”. Se atentarmos para os partidos políticos ora no poder á nível da África Austral, poderemos ver que, para além da Zâmbia e Malawi, todos os partidos no poder foram movimentos de libertação nacional: ANC, FRELIMO; SWAPO, CCM, MPLA, são os partidos conscientes da cumplicidade existente entre eles.

Nalgum momento um ajudou o outro: A Frelimo foi ajudada pelo CCM na altura das guerras de libertação nacional; por sua vez, a ZANU PF foi ajudada pela Frelimo quando Mugabe e seus homens combatiam o regime de Ian Smith o MPLA e FRELIMO acobertaram os combatentes do ANC na altura do Apartheid na África do Sul, etc. E todos estes estão conscientes que a queda de um, pode significar o fim do seu siclo a nível da África Austral.

Não é por acaso que Mwanawassa e Mutharika são vistos como “forasteiros” no actual xadrez político regional, não tendo portando, muita voz nem influência no interior da Cimeira da SADC.

Outro facto prende-se com o facto de Zambia e Mallawi estarem mais virados para a COMESA (organização para o mercado comum para África Oriental e Austral) do que para SADC, Comunidade para o Desenvolvimento dos Países da África Austral.

Independentemente dos motivos, acho importante que os estados membros da África Austral tivessem que fazer mais do que actualmente fazem para recuperar o pouco do que resta no Zimbabwe: as fronteiras e as pessoas.

Não basta a diplomacia silenciosa, que na verdade, não passa de um exercício vergonhoso de consentimento com o que está a acontecer naquele país, tentando á todo custo manter o camarada amigo no poder apenas por terem aparentemente “sofrido”  juntos em algum momento da história recente deste continente.